Diário de bordo | Recife: The Playable City

Por Camila Bandeira (Diretora Executiva da Proa) A ideia de participar de um programa para buscar soluções criativas pros problemas urbanos, pra mim, era muito instigante. Muito disso porque estou quase sempre pensando, conversando, lendo sobre, quando não realizando, algum projeto que vise melhorar a vida das pessoas na cidade. Não sou uma especialista no assunto, mas, como produtora cultural, é meu papel transformar, pouco a pouco, os hábitos e valores dos cidadãos com relação ao lugar onde vivem. Mais empolgante ainda era a ideia de juntar artistas, tecnólogos e produtores brasileiros com britânicos para proporem intervenções urbanas que deixassem o Recife mais “playable”, ou seja, mais interativo, lúdico, divertido… Pra mim, o Recife já é uma cidade brincante! Temos o humor nas veias, a criatividade na alma. Então, se juntar a profissionais da Europa, que lidam com problemas bem diferentes dos nossos e têm a ideia de “fun” associada a outros elementos que não aqueles que a gente culturalmente costuma relacionar, me motivou bastante. Conhecemos o grupo inglês lá, em Bristol, em janeiro, quando se deu a primeira residência. E, realmente, as diferenças foram, já de cara, bem impactantes. Essas divergências estavam não só em como os britânicos trabalham ou os resultados que almejavam em comparação às nossas pretensões com o projeto, mas, inclusive, nas visões sobre a cidade entre os próprios recifenses.

Recebemos uma carga de informação muito grande e a programação era intensa, bem aos moldes britânicos. Hora pra começar, hora pra acabar, e no final, todo mundo exausto com tanto conteúdo pra assimilar. As palestras e workshops que aconteceram no Watershed, no Pervasive Media Studio, foram muito interessantes. Eles trouxeram profissionais experientes para falarem dos seus projetos a atuações, professores de universidades renomados para abordar o tema playable city, e tiveram um notável carinho e cuidado ao desenvolver as dinâmicas em grupo. Mas, a quantidade de atividades, realmente, nos deixava sem ânimo nem pra curtir a cidade no fim do dia… Bristol é linda! No sudoeste da Inglaterra, ela é o maior centro de empregos, cultura e educação nessa região do país. Essa prosperidade está, em grande parte, associada a atividades marítimas. A área onde era o Porto de Bristol, no centro da cidade, se transformou em patrimônio histórico e cultural e é onde estão baseadas algumas empresas de criação de mídia eletrônica, setor que, hoje, é um dos pilares da economia da cidade. É onde está o Watershed, onde passamos a maior parte do tempo trabalhando. Qualquer semelhança com o Recife é natural! E foi justamente aqui no Recife Antigo, onde, outrora, eram exportados açúcar e outros produtos agrícolas e importadas mercadorias dos outros continentes, que aconteceu o intercâmbio internacional, dessa vez, de conhecimento e cultura. O Portomídia, em abril, foi o QG da segunda residência, quando os ingleses vieram para darmos continuidade aos projetos iniciados em Bristol e onde teríamos o encerramento do “Recife: The Playable City”, ao apresentar os resultados dessa maravilhosa experiência ao público. Tivemos 12 dias também intensos, agoniantes e valiosos. Aqui, no entanto, tivemos uma maior flexibilidade de horário e pudemos proporcionar aos ingleses (e aos recifenses) momentos de maior interação e conexão com a cidade. Foi marcante a ida ao evento “Praias do Capibaribe”, no Coque, no domingo à tarde. Fomos e voltamos de barco pelo rio e lá, no meio de uma comunidade do tipo das que eles só ouviam falar ou viam em foto ou vídeo, o grupo pôde conversar e brincar com os moradores da área. Também tiveram a oportunidade de falar ao grande público (composto não só pelos moradores do Coque, mas também por ativistas culturais e sociais da classe média) como eles percebem que os espaços públicos de uma cidade podem ser ocupados. Na segunda-feira seguinte, começamos a colocar a mão na massa e construir os protótipos do que iríamos apresentar na exposição final do programa. Esses cinco dias foram particularmente difíceis. Trabalhar colaborativamente não é fácil, ainda por cima quando as expectativas são divergentes… Teve gente que desistiu no meio do caminho, gente que chorou de tanto estresse e gente que foi bater no hospital. Houve grupo (ao todo, tivemos 4, todos formados por brasileiros e britânicos, com pessoas de todas as áreas: produtores, artistas e tecnólogos) que decidiu seguir com mais de uma das ideias que já haviam experimentado em Bristol; outros que aprimoraram, entre a primeira e a segunda residência, os projetos iniciais; e um grupo (do qual eu fiz parte) que voltou a uma das primeiras ideias discutidas, depois de experimentar várias outras, já no final do segundo tempo. Apesar de todas as dificuldades, lidar com as diferenças foi muito interessante. Tentei achar o equilíbrio e encontrar um ponto de convergência entre os diferentes anseios e hábitos das pessoas e as tão diversas capacidades e background do grupo. Acredito cada vez mais no trabalho colaborativo. Acho que o resultado do grupo foi o resultado de uma verdadeira construção em rede. E esse processo de construção, pra mim, foi o que mais valeu. Na sexta-feira, até os últimos minutos que antecederam os debates de abertura do showcase, estávamos todos lá, no Teatro Hermilo, ao lado do Portomídia, para falar um pouco ao público da nossa experiência. É claro que não conseguimos expressar tudo o que sentíamos naqueles 20 minutos de explanação. Era mais importante, talvez, falar dos projetos… Mas tudo o que sentíamos, naquele momento (falo por mim, mas tenho certeza que represento vários), era uma sensação maravilhosa de missão cumprida. De lições adquiridas, amizades conquistadas, parcerias realizadas. Era uma sensação de que cada um deu o melhor de si e todos ganharam com o que deixaram-se perder. O “Recife: The Playable City”, pra mim, é um marco. Não só para a cidade que, com certeza, ainda vai colher muitos frutos dessa iniciativa ousada e instigante, mas na vida dos participantes. Não só dos 20 que foram selecionados para o programa, mas na de todos que se envolveram, de alguma maneira, e que fizeram possível essa experiência acontecer. Agradeço ao Porto Digital por ter me indicado e por acreditar em tudo que ainda podemos realizar juntos. Ao British Council, por idealizar e conceber esse programa diferenciado. Ao Watershed pela dedicação e coragem com que trataram esse projeto. A todos os participantes que, com toda aquela agonia e inquietação, me mostraram que a intenção colocada na construção é o que dá as bases sólidas para uma grande obra. Recife, abril de 2014. Clique aqui para ver este diário no site do Watershed! Fotos: Fabio Florencio